Alexander Alekhine  Enviar por E-mail
Escrito por Sérgio Rocha   
Quarta, 23 Dezembro 2009 21:12

Artigo publicado na Revista Portuguesa de Xadrez Nº 5 de Setembro de 2009

Alekhine, A - Euwe, M [A48]

Londres 1922

Alexander Alekhine foi o 4º Campeão Mundial de Xadrez. Oriundo de Moscovo onde nasceu em 1892 viria a falecer em Portugal, mais precisamente no Estoril em 1946 na posse do título. Ainda hoje subsiste a dúvida de ataque cardíaco ou assassinato dadas as alegadas relações que Alekhine teria tido durante a guerra com o regime nazi. No mundo do xadrez Alekhine foi tratado como um génio táctico com enorme conhecimento posicional a fenomenal apetência técnica o que fez com que este Campeão Mundial fosse considerado o pioneiro do estilo universal como afirmou Kasparov. Alekhine aprendeu a jogar xadrez com um irmão e rapidamente alcançou um bom nível dado o interesse e desenvolvimento social que a modalidade tinha em Moscovo.

Em 1909 atinge o título de Mestre Russo e em 1914 obtém o seu primeiro grande resultado num grande torneio ao ganhar conjuntamente com Nimzovich o Torneio de Mestres Russos. Após a 1ª Guerra Mundial Alekhine começou a jogar xadrez intensamente e ao mais alto nível até que em 1927 em Buenos Aires derrota Capablanca por 6 a 3 e proclama-se Campeão Mundial. Em 1935 Alekhine perdeu o título para Euwe mas dois anos mais tarde recuperá-lo-ia num Match de Desforra.

Hoje apresentamos uma partida menos conhecida do grande Campeão contra Euwe mas com grande interesse na técnica demonstrada no final. 1.d4 ¤f6 2.¤f3 g6 Esta ordem de jogadas sem movimentar nenhum peão central é um intento de jogar a defesa Grunfeld por parte das pretas que no entanto só é possível depois de as brancas efectuarem os lances c4 e Cc3 3.¥f4 Alekhine evita uma discussão teórica à volta das linhas principais e joga uma variante aparentemente menos ofensiva mas que se as pretas não jogarem com exactidão podem encontrar-se em dificuldades rapidamente 3...¥g7 4.¤bd2 c5 A melhor maneira para combater o centro branco dado que dxc5 é mau devido a Ca6 recuperando o peão com vantagem posicional 5.e3 d6 6.c3 ¤c6 7.h3 Esta é uma jogada muito importante neste tipo de estruturas dado que controla a casa g4 e dá uma casa de fuga ao bispo de f4 em caso de ser atacado com Ch5 7...0–0 8.¥c4 Esta é uma boa alternativa ao profiláctico Be2 dado que d5 não constitui uma ameaça uma vez que o tempo perdido a retirar o bispo seria compensado pelo tempo que as pretas perderam a mover o seu peão duas vezes e pela liberdade que o bispo de f4 passaria agora a ter 8...¦e8 9.0–0 e5 10.dxe5 ¤xe5 Esta simples jogada não foi a mais precisa dado que dá uma ligeiríssima vantagem posicional às brancas [10...dxe5 11.¥h2 ¥e6 12.¥xe6 ¦xe6 13.¤c4 Com jogo muito confortável para as brancas] 11.¥xe5 dxe5 12.¤g5 ¥e6 Uma jogada que nos dias de hoje é facilmente reconhecida como um erro grave dada a evolução que houve no xadrez e que permite avaliar a posição resultante como praticamente decisiva para as brancas dado o conceito de cavalo bom contra bispo mau como poderemos observar no decorrer da partida [12...¦f8 13.¤de4 ¤xe4? (13...£xd1 14.¦fxd1 ¤xe4 15.¤xe4 b6 Com vantagem branca dado o domínio da coluna "d" e o controlo das casas brancas) 14.¥xf7+ ¢h8 15.£xd8 ¦xd8 16.¤xe4+-] 13.¥xe6 fxe6 14.¤de4 ¤xe4 15.£xd8 ¦exd8 16.¤xe4

XABCDEFGHY
8r+-tr-+k+(
7zpp+-+-vlp'
6-+-+p+p+&
5+-zp-zp-+-%
4-+-+N+-+$
3+-zP-zP-+P#
2PzP-+-zPP+"
1tR-+-+RmK-!
xabcdefghy

16...b6 17.¦fd1 Esta posição demonstra o domínio do Cavalo sobre o Bispo além dos peões fracos das pretas, as pretas não podem trocar todas as torres sob pena de entrarem num final completamente perdido 17...¢f8 18.¢f1 [18.¤g5 Ganha um peão mas dá algumas hipóteses de empate às pretas devido a 18...¢e7 19.¤xh7 ¥h6 20.h4 ¦h8 21.¤g5 ¥xg5 22.hxg5] 18...¢e7 19.c4 Boa jogada que dá início a um largo plano, o cavalo está inexpugnável em e4 e os peões negros estão bloqueados

19...h6 20.¢e2 ¦xd1 21.¦xd1 ¦b8 [21...¦d8 22.¦xd8 ¢xd8


XABCDEFGHY
8-+-mk-+-+(
7zp-+-+-vl-'
6-zp-+p+pzp&
5+-zp-zp-+-%
4-+P+N+-+$
3+-+-zP-+P#
2PzP-+KzPP+"
1+-+-+-+-!
xabcdefghy

Esta posição está perdida para as pretas. As brancas executam o seu plano sem que as pretas possam fazer alguma coisa para evitar a derrota. Assim as brancas jogariam h4 e g4 com ideia de g5 e limitar completamente o bispo preto, de seguida jogariam b3 (retirando este peão da casa preta) Rd3, Cc3 e Re4 e manobra do cavalo até d3 sem que as negras possam fazer alguma coisa.]

22.¦d3 ¥h8 já não há alternativas 23.a4 ¦c8 [23...a5 24.¦b3 ganha um peão] 24.¦b3 ¢d7 25.a5

A ruptura necessária para abrir outra coluna que permita a torre branca entrar 25...¢c6 26.axb6 axb6 27.¦a3 ¥g7 28.¦a7 ¦c7 29.¦a8 Agora não é necessário trocar as torres uma vez que a torre branca é muito mais activa que a preta e o bispo de g7 é praticamente uma peça a menos 29...¦e7 30.¦c8+ ¢d7 31.¦g8 ¢c6 32.h4 realizando o plano com g4 e g5 para bloquear ainda mais o bispo 32...¢c7 33.g4 ¢c6 34.¢d3 ¦d7+ 35.¢c3 ¦f7 36.b3 ¢c7 37.¢d3 ¦d7+ 38.¢e2 ¦f7 39.¤c3


XABCDEFGHY
8-+-+-+R+(
7+-mk-+rvl-'
6-zp-+p+pzp&
5+-zp-zp-+-%
4-+P+-+PzP$
3+PsN-zP-+-#
2-+-+KzP-+"
1+-+-+-+-!
xabcdefghy

O cavalo esteve em e4 durante 25 jogadas onde sem se mexer teve uma influência decisiva na partida. Agora chegou a altura da execução final e dirige-se a b5 (libertando a casa e4 para o rei) onde em conjugação com a torre vai levar finalmente à vantagem material 39...¦e7 40.g5 hxg5 41.hxg5 ¢c6 42.¢d3 ¦d7+ 43.¢e4 ¦c7 44.¤b5 ¦e7 45.f3 ¢d7 [45...¢b7 46.¤d6+ ¢c6 47.¤e8 Bonita maneira de ganhar o bispo] 46.¦b8 ¢c6 47.¦c8+ ¢d7 48.¦c7+ ¢d8 49.¦c6

E finalmente cai material 49...¦b7 50.¦xe6 1–0

 

 

 
Copyright 2008 Sergio Rocha